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Investigações em São Paulo indicam caminho para asfixiar o crime organizado

Fonte: veja.abril.com.br | Data: 06/11/2026 06:00:01

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Grupo de policiais militares e civis, alguns com coletes balísticos, reunidos à noite em um pátio de estacionamento com viaturas ao fundo, sob iluminação artificial. Dois homens de costas, com camisas pretas e o logo GAECO em branco e vermelho, observam o grupo.
CERCO - Policiais e agentes do Gaeco, grupo especial do MPSP, antes de uma das operações: escalada contra as facções (MPSP/Divulgação)

Em maio deste ano, uma cena inusitada chamou a atenção de quem passava pela Rua Brigadeiro Tobias, na movimentada região da Luz, no centro de São Paulo. Quatro carros de luxo — um deles nem sequer é vendido no Brasil — estavam estacionados em frente ao Palácio da Polícia Civil. A apreensão dos veículos, avaliados em ao menos 5 milhões de reais, fez parte de uma investigação que, segundo o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), “tropa de elite” do Ministério Público de São Paulo, e a Polícia Civil paulista, liga a influencer e advogada Deolane Bezerra à facção Primeiro Comando da Capital (PCC), em um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou mais de 300 milhões de reais. O Cadillac Escalade 600, importado dos EUA pela celebridade digital, foi ostentado em post nas redes sociais, quando ela classificou o bem luxuoso como “carro de gângster, muito louco”. Deolane está presa desde 21 de maio, após ser alvo da Operação Vérnix, uma das centenas tocadas nos últimos anos pelo MP, pela polícia e por outros órgãos de Estado, que estão promovendo uma escalada para asfixiar a máquina de dinheiro sujo que movimenta o crime organizado.

Infográfico Ofensiva Contra o Crime com números do Gaeco (MPSP) de 2024 a 2026: 436 operações, 4.201 ações de busca e apreensão, 1.518 pessoas presas, 615 armas apreendidas, 568 milhões de reais bloqueados, 4 bilhões de reais recuperados em condenações judiciais, 45 bilhões de reais em ações e títulos de créditos bloqueados em 2025
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Os números da ofensiva no maior estado da federação são superlativos: nos últimos três anos, mais de 400 operações, com 4 200 ações de busca e apreensão. Elas reforçaram investigações que arrestaram quantias vultosas das organizações criminosas: 4 bilhões de reais acabaram sendo recuperados em condenações judiciais e, só em 2025, 45 bilhões de reais em ações e títulos de crédito foram bloqueados (veja o quadro nesta página).

Luxuosos carros esportivos, um vermelho e um amarelo, estacionados em frente a uma residência moderna com palmeiras, ao lado de veículos da polícia em uma rua residencial
LUXO - Porsche e Ferrari recolhidos: ostentação dos bandidos na mira (BAEP/Divulgação)

Mas nem só de dinheiro (inclusive em criptomoedas e moedas estrangeiras) vive a máquina do crime organizado. Bens luxuosos como joias, carros, relógios, roupas de grife, casas e apartamentos são classificados por especialistas como formas de movimentar dinheiro de atividades ilícitas e torná-lo limpo no mercado legal. Uma operação do MP neste ano apreendeu, por exemplo, um helicóptero modelo Robinson R66, avaliado em 10 milhões de reais, que era usado por um grupo criminoso que explorava crimes financeiros e lesou ao menos 2 000 pessoas. De resto, as apreensões nos últimos anos em São Paulo resultaram no confisco de objetos de luxo como carros (Porsche, Ferrari, BMW, Mercedes e Lamborghini), joias (como uma infinidade de relógios Rolex) e até um iate de 23 metros, apreendido em operação contra a máquina financeira do PCC.

Helicóptero preto brilhante com interior bege claro, parado em um hangar com teto de metal e vigas de madeira. As pás do rotor principal estão visíveis, e há outro helicóptero parcialmente visível ao fundo.
VEÍCULO - Robinson R66: avaliado em 10 milhões de reais, helicóptero faz parte hoje da frota oficial do estado (MPSP/Divulgação)

Bens desse quilate costumam fazer parte da engrenagem de lavagem de dinheiro, que é conhecida pelas autoridades nacionais e internacionais desde o século passado. Ela tem ao menos três fases. A primeira é a colocação de dinheiro oriundo de ações criminosas (tráfico, extorsão e roubo, por exemplo) no sistema econômico. É classificada por especialistas como o momento mais oportuno para descobrir esquemas fraudulentos com utilização do dinheiro sujo. Isso porque é nessa fase que criminosos e associados realizam depósitos financeiros e aplicações e compram produtos, na tentativa de dar aparência lícita à movimentação financeira. “As autoridades, por isso mesmo, devem centrar o foco dos maiores esforços de sua investigação nesta fase da lavagem. Quanto antes se conseguir detectar os esquemas utilizados no processo de lavagem, tanto maiores serão as chances de sucesso em qualquer investigação criminal dessa natureza”, classificou em artigo publicado pela PUC-SP o promotor de Justiça Marcelo Blatouni Mendroni, doutor em direito pela Universidade Complutense de Madri.

Homem idoso de cabelos brancos, óculos pretos, terno escuro e gravata verde estampada, falando em um microfone. Ao fundo, letras desfocadas de PÚBLICO e uma garrafa de água
ARMAS - Oliveira e Costa: inteligência e estratégia contra a sofisticação do crime (Danilo Verpa/Folhapress/.)

A segunda fase da operação criminosa, a ocultação, consiste em realizar transferências entre contas correntes, uso de empresas (às vezes de fachada) e de pessoas que não existem, empréstimos simulados e transferências para paraísos fiscais. Por fim, a última etapa é a incorporação, quando criminosos apresentam documentos aparentemente legais para justificar compras de bens e aplicações. É aí que aparecem os itens luxuosos, o que torna a investigação mais difícil. Há divergências sobre a origem da expressão “lavagem de dinheiro”, mas a versão mais citada associa o termo ao gângster ítalo-americano Alphonse Gabriel Capone, o Al Capone, acusado de colocar dinheiro ilícito no mercado formal por meio de lavanderias nos EUA.

Essa ocultação de dinheiro ilícito é cada vez mais sofisticada, o que vem exigindo reforços constantes de investimentos no combate. Nos últimos anos, o Gaeco-SP ampliou o número de operações para combater o crime organizado. Para se ter uma ideia, em 2025 os promotores conseguiram junto à Justiça recuperar 1,8 bilhão de reais em valores decretados perdidos em condenações. Já em 2026, até agosto, a medida já alcançou 2,3 bilhões de reais. Parte do sucesso da empreitada se deve ao endurecimento da legislação nos últimos anos, o que ainda deve ser ampliado após a aprovação da Lei Antifacção (15.358/2026), relatada na Câmara pelo ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, e hoje senador eleito, Guilherme Derrite.

Homem de terno azul-marinho e gravata verde-água, com expressão séria, parado em um corredor longo e estreito de prisão, ladeado por celas cinzas com portas de metal e pequenas janelas, com uma faixa amarela no chão
COTADO - Lincoln Gakiya, do Gaeco-SP: especialista em facções, ele pode virar o ministro da Segurança Pública de Lula (Dan Agostini/The Washington Post/Getty Images)

Um componente essencial do sucesso da ofensiva em São Paulo está na crescente articulação entre os diversos órgãos de Estado. “O crime organizado se sofisticou. Ele ainda atua muito forte no tráfico de entorpecentes, mas está lavando seus lucros na economia formal. É isso que temos notado já há alguns anos. E, a partir daí, vivemos um momento muito sofisticado de ação colaborativa entre o Ministério Público, as polícias, os órgãos de controle, que, com inteligência e estratégia, estabelecem alvos para agir”, afirma o procurador-geral de Justiça Paulo Sergio de Oliveira e Costa, chefe do MP paulista. Segundo ele, a sofisticação das quadrilhas exige um aperfeiçoamento do combate a esses grupos. “Hoje, o crime organizado diversificou sua atuação, tem o próprio banco, atua no mercado de combustíveis. Mas o Estado tem que mostrar que é mais organizado. E, por conta disso, a estratégia que temos adotado é a de asfixia financeira”, disse ao programa VEJA em Foco.

O maior exemplo dessa união de forças citada por Oliveira e Costa foi visto na Operação Carbono Oculto, uma das maiores da história do país. Ao lado do Gaeco paulista atuaram — e ainda atuam — nas investigações a Receita Federal, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal (MPF), as Polícias Civil e Militar de São Paulo, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) de São Paulo, o governo de São Paulo e a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Com cerca de 1 400 agentes, a primeira fase da investigação foi deflagrada em agosto de 2025 e chegou à Faria Lima. À época, foi identificado que o crime organizado utilizava fintechs e fundos de investimento para lavar dinheiro e ocultar patrimônio.

Três policiais com balaclavas e coletes táticos, armados, em frente a carros pretos e um prédio da Polícia Civil. Um cinegrafista filma à esquerda.
EXEMPLO - Carbono Oculto: ação foi articulada por órgãos estaduais e federais (Danilo Verpa/Folhapress/.)

A integração de forças de diferentes entes da federação é a pedra de toque da PEC da Segurança Pública, aprovada pelo Congresso na terça-feira 3. Um dos principais pontos da iniciativa do governo Lula é a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). A intenção é fortalecer a articulação entre os órgãos de segurança, com compartilhamento de informações, interoperabilidade de sistemas e formação de forças-tarefa intergovernamentais e interinstitucionais. Na prática, a medida busca reduzir a fragmentação das ações e facilitar investigações que ultrapassam fronteiras estaduais. “A aprovação da PEC e a criação do Ministério da Segurança Pública serão fundamentais para união e integração de forças no combate eficiente ao crime organizado interestadual e transnacional, como são os casos do PCC e do Comando Vermelho”, diz o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco-SP, que investiga há mais de vinte anos as facções criminosas e é cotado para assumir o ministério a ser criado por Lula.

A aprovação da PEC põe de vez o governo federal como ator central no combate ao crime, mas há um imenso caminho ainda a percorrer. Existem questões a ser superadas, como a formatação do ministério, o ajuste fino entre a União e as 27 unidades da federação, a correção de gargalos históricos (como a falta de conexão entre os diferentes bancos de dados) e a questão do orçamento, hoje quase todo sob responsabilidade dos estados. De qualquer forma, a articulação eficiente, como tem sido vista em São Paulo, aponta na direção certa para combater com organização um crime cada vez mais organizado.

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020