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Data centers devem ganhar espaço no mercado de dívida, avalia ABC Brasil

Fonte: valor.globo.com | Data: 06/11/2026 13:05:23

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Levantamento mostra que as debêntures são uma das principais fontes de financiamento das empresas do setor, ao lado de empréstimos e recursos dos acionistas

A expansão dos data centers no Brasil deve aumentar a demanda por financiamento no mercado de capitais, com as empresas do setor ganhando espaço nas emissões de dívida quando houver uma recuperação das ofertas. Segundo relatório da área de pesquisa do Banco ABC Brasil, o setor já utiliza intensamente as debêntures para financiar seus investimentos, mas enfrenta riscos relacionados ao custo de construção dos projetos e, principalmente, à dificuldade de acesso à rede elétrica.

“O mercado primário de dívida ainda seguirá lento este ano, mas, quando ele ganhar tração, acreditamos que o setor de data centers será um forte concorrente nas captações”, afirma o analista Odilon Costa, responsável pelo estudo.

O levantamento mostra que as debêntures são uma das principais fontes de financiamento das empresas do setor, ao lado de empréstimos e recursos dos acionistas. Em 2025, esses títulos representavam 87% da estrutura de financiamento da Elea Digital, 73% da Ascenty e 56% da Scala Data Centers, considerando a soma de debêntures, outros passivos financeiros e patrimônio líquido.

Embora as receitas das companhias sejam predominantemente vinculadas ao dólar, boa parte das dívidas é emitida em reais e remunerada pelo CDI. Segundo o Banco ABC, as empresas utilizam operações com derivativos para reduzir a exposição às variações cambiais e das taxas de juros.

O relatório destaca, porém, que os títulos emitidos por essas companhias apresentam baixo volume de negociação no mercado secundário, o que sugere que tenham permanecido nas carteiras dos bancos responsáveis pela coordenação das ofertas. As emissões contam com garantias, como ações das companhias, equipamentos e recebíveis dos contratos.

Na avaliação do Banco ABC, há espaço para ampliar a participação do mercado de crédito doméstico no financiamento dos projetos, assim como de bancos de fomento e estruturas alternativas. Entre elas estão operações nas quais a empresa vende um imóvel ou ativo e continua a utilizá-lo mediante pagamento de aluguel, com obrigação de recompra.

A demanda por recursos acompanha a expansão dos investimentos em infraestrutura digital, impulsionada pela computação em nuvem e pela inteligência artificial. Segundo projeções da Brasscom citadas no relatório, a potência instalada de data centers no Brasil deverá passar de 843 megawatts (MW), em 2025, para 3.144 MW em 2031.

O Banco ABC identificou projetos de grande porte em diferentes regiões do país. Entre eles estão o Rio AI City, da Elea Digital, no Rio de Janeiro, com investimento estimado em US$ 10 bilhões e capacidade planejada de até 3.200 MW, e o campus da Scala em Barueri, em São Paulo, com previsão de investimento de R$ 32 bilhões e capacidade de 600 MW. Os valores se referem a projetos anunciados ou planejados, cuja execução depende de diferentes etapas de implantação.

Uma das características que favorecem o financiamento do setor são os contratos de longo prazo com grandes empresas de tecnologia, como Microsoft, Google e Amazon. Esses acordos, geralmente superiores a dez anos, preveem pagamentos mesmo quando a infraestrutura contratada não é integralmente utilizada, o que reduz o risco de vacância e dá maior estabilidade às receitas destinadas ao pagamento das dívidas.

Por outro lado, os investimentos elevados e os prazos de construção aumentam a exposição das empresas a atrasos e custos adicionais.

O principal obstáculo apontado pelo estudo é a disponibilidade de energia elétrica. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) citados pelo Banco ABC, os pedidos de acesso à rede de transmissão associados a projetos de data centers somam 26,3 gigawatts (GW), capacidade equivalente a aproximadamente um quarto do pico de demanda de eletricidade do país.

O volume solicitado, entretanto, não significa que todos os projetos serão implantados. De acordo com o relatório, cerca de 59% da capacidade examinada em processos recentes pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) foi considerada inviável ou condicionada à ampliação da infraestrutura de transmissão.

A diferença entre os prazos de construção dos empreendimentos e de conexão à rede representa um risco adicional para os financiadores. Enquanto a construção de um data center de 50 MW leva aproximadamente 18 meses, a aprovação e a implantação da conexão elétrica podem exigir de três a quatro anos, segundo as estimativas reunidas pelo banco.

Nesse cenário, uma empresa pode concluir as instalações e permanecer sem condições de iniciar a operação, acumulando investimentos sem a correspondente geração de receita.

O estudo aponta que a escassez de capacidade elétrica nas regiões mais procuradas, especialmente em Barueri, tem levado empresas a buscar novas áreas no interior paulista, como Campinas, Jundiaí e Sumaré. Projetos voltados ao treinamento de modelos de inteligência artificial também podem favorecer investimentos em regiões com maior disponibilidade de energia renovável, como o Nordeste.

Odilon Costa, chefe da área de pesquisa do Banco ABC Brasil — Foto: Gabriel Reis/Valor
Odilon Costa, chefe da área de pesquisa do Banco ABC Brasil — Foto: Gabriel Reis/Valor

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