Enem terá 90 questões, redação e cinco horas e meia de duração
Fonte: diariodoestadoms.com.br | Data: 06/11/2026 10:50:05
Quem vê Raimundo dos Santos Nascimento, de 62 anos, em uma sala de um cursinho popular da Ceilândia, no Distrito Federal, não faz ideia da trajetória que este carioca percorreu até esta preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Ele é um dos 13.821 candidatos do Enem 2026 com mais de 60 anos.

Vindo do Rio de Janeiro há 16 anos, Raimundo viveu cerca de seis deles em situação de rua no Plano Piloto, em Brasília. Sua retomada de perspectiva começou no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) e na Escola de Meninos e Meninas do Parque (EMMP), localizada no Parque da Cidade Sarah Kubitschek, da capital federal. Foi lá onde concluiu o ensino fundamental. Seu foco, agora, é conquistar uma vaga na graduação de psicologia na Universidade de Brasília (UnB).
Mesmo com cansaço decorrente da dupla jornada, de segunda a sábado, Márcia já tomou sua decisão. “Quero fazer nutrição. Fiz o Enem no ano passado. Infelizmente, não tirei a nota que eu queria. Neste ano, cheguei já no finalzinho [do curso] antes de fazer a prova. Mas, tem sido muito bom. É um momento divisor de águas, porque estou com a expectativa lá em cima.”
“Concluí o ensino médio em 1900 antigamente. Quando eu decidi fazer o curso superior, abri o caderno e eu falei: ‘Meu Deus, como é que eu vou estudar?’ Fiquei perdida. Então, minha filha me falou sobre esse cursinho e resolvi: ‘Eu quero’”, afirmou a diarista.
Quem divide a mesma sala de aula é a caixa de um supermercado Gilmara Pereira Braga, de 47 anos. Ela terminou o ensino médio em 2000. O que parecia distante, agora, se desenha como um sonho de um futuro melhor.
“O cursinho me oferece um conhecimento amplo muito importante. Quando eu cheguei aqui, tinha pavor de matemática. O medo foi embora quando falei com o professor que é muito bom.” Nas novas perspectivas, Gilmara quer se capacitar para trabalhar com educação especial.
“Quero muito entrar na Universidade de Brasília e gostaria de fazer psicologia. Muitas crianças são excluídas da educação e não têm possibilidade de evoluir. Acho importante ter profissionais que olhem para crianças especiais”, reflete.
“Como uma pessoa periférica, eu não teria tantas possibilidades econômicas de acessar outros cursinhos. Por isso, esse aqui é extremamente importante pra mim. Além dele estar perto, aqui na minha periferia, o cursinho consegue me dar o conhecimento que eu preciso para ingressar [no ensino superior] pelo Enem.”
Suporte técnico e financeiro
Para os cursinhos populares, a Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP) fornece apoio financeiro de até R$ 163,2 mil por unidade selecionada para o pagamento de professores, coordenadores e apoio técnico-administrativo e compra de materiais.
O coordenador pedagógico do projeto na Ceilândia, Rodrigo da Silva Soares, relatou à Agência Brasil o impacto deste investimento na unidade. “Por mais que sejamos um cursinho voluntário, isso envolve custos. E ter o recurso do MEC que vem para a gente fortalece muito a continuação do trabalho”.
O professor lista como o dinheiro é empregado no cotidiano da instituição comunitária. “É muito importante quando se tem o mínimo de recurso para poder fazer a gestão, para poder dar apoio até para o voluntário que está aqui, pagar a passagem, um lanche e fazer alguma saída de campo com a galera daqui.”
Pela ótica de aluna beneficiária do Jovens de Expressão há dois anos, Azize Quemel, de 28 anos, considera oportuna políticas públicas como essa que custeiam iniciativas voluntárias de apoio a adultos historicamente expostos à falta de recursos materiais, sociais e de acesso direitos básicos garantidos pelo Estado. “O ‘Jovens de Expressão’ permite aos moradores de periferia estarem nesses espaços porque um cursinho pré-vestibular é caro e, por isso, só vemos filhos de patrões fazendo. Mensalmente, não era viável para a gente.”
Outro que se dedica ao preparo do Enem é produtor musical e DJ [disc jockey], Miguel Lacerda, de 20 anos, estudante do Jovem Expressão há dois anos. O artista valoriza a capacitação para entrar na disputa por uma vaga na universidade em ampla concorrência.
“Quando eu era mais novo, deixei de estudar. Mas, eu gosto de estudar. Em 2020, eu fiz a prova do Enem e tirei 640 [pontos] na redação. Então, eu conheci o [cursinho] Jovem de Expressão e decidi fazer o preparatório. Eu tenho que me formar. Agora, com 62 anos, eu me sinto jovem.
Cursinho popular
O cursinho comunitário onde o Raimundo adquire conhecimentos é o Jovem de Expressão (JEX), com 17 anos de experiência no preparo gratuito para o Enem, para o Programa de Avaliação Seriada (Pas) da UnB e para outros vestibulares.
A unidade é um dos 1.535 cursinhos populares da Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP), que atende mais de 58 mil estudantes que cursaram a educação básica na rede pública, com prioridade para pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência (PCD) e de famílias de baixa renda (renda por pessoa de até um salário mínimo, R$ 1.621, em 2026).
A iniciativa tem o objetivo de facilitar o acesso ao ensino superior de jovens e adultos que enfrentam barreiras socioeconômicas. Na prática, o cursinho oferece uma oportunidade real para quem não tem condições financeiras de arcar com o ensino privado ou conciliar horários tradicionais porque passa o dia trabalhando.
Realidade que se encaixa no perfil da diarista Márcia Regina Carvalho Damasceno Dias, que tinha parado de estudar há 20 anos e voltou à cadeira de estudante por incentivo da filha que, atualmente, está na faculdade.