Pela primeira vez, indígenas e quilombola ingressam na carreira diplomática brasileira
Fonte: brasil247.com | Data: 06/11/2026 13:44:16
247 – A diplomacia brasileira registrou um marco histórico com a posse de dois indígenas e uma quilombola na carreira diplomática. Helen Jaine Gomes Borgens, da comunidade quilombola do Retiro, em Goiás, Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Achkar Terena, do povo Terena, passaram a integrar o Ministério das Relações Exteriores após aprovação no concurso de admissão à carreira diplomática. A cerimônia ocorreu na quarta-feira (4), no Palácio Itamaraty, em Brasília, e simbolizou um avanço na representação de comunidades historicamente excluídas dos espaços de poder do Estado brasileiro.
Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo nesta sexta-feira (6), os três diplomatas integram a turma 2026-2028 do Instituto Rio Branco, composta por 60 profissionais. O grupo apresenta a maior participação feminina já registrada na instituição e reúne 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, dois indígenas e uma quilombola, além de representantes das cinco regiões brasileiras.
A entrada dos novos diplomatas amplia a diversidade étnica no Ministério das Relações Exteriores, instituição responsável pela condução da política externa brasileira. A presença de representantes de povos indígenas e comunidades quilombolas também representa uma mudança na composição de uma carreira tradicionalmente marcada por barreiras sociais e educacionais de acesso.
Quilombola de Goiás superou dificuldades para ingressar na diplomacia
Natural da comunidade quilombola do Retiro, localizada em Goiás e vinculada à Associação de Comunidades Quilombolas Castelo, Retiro e Três Rios, Helen Jaine Gomes Borgens construiu sua trajetória acadêmica a partir da educação pública. Ela estudou no Colégio Estadual Elvira Leão Barreto, em Simolândia, e posteriormente concluiu a graduação em Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás (UFG).
O interesse pela carreira diplomática surgiu em 2017, quando um professor a incentivou a considerar a profissão durante a preparação para o vestibular. Depois de concluir a universidade, Helen retornou à comunidade onde nasceu para se dedicar aos estudos necessários à aprovação no concurso.
Em relato à UFG, a diplomata destacou as dificuldades enfrentadas por quem vive no interior do país, especialmente em relação ao acesso a cursos especializados de preparação. Diante dessas limitações, optou por estudar de maneira independente.
A conquista foi celebrada nas redes sociais. Helen publicou fotografias da cerimônia de posse acompanhadas de uma referência bíblica relacionada à superação de dificuldades e à realização de sonhos. Na legenda, escreveu: “Grande dia”.
Marcelo Kariri Menezes destaca papel da educação na superação de preconceitos
Nascido em Campina Grande, na Paraíba, Marcelo Kariri Menezes é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e possui MBA em Digital Business pela Universidade de São Paulo (USP/Esalq).
Antes de ingressar na diplomacia, trabalhou entre 2021 e 2025 como engenheiro de suporte a produtos. Também é autor de um livro infantojuvenil, experiência que integra sua trajetória profissional e intelectual.
Durante a cerimônia no Itamaraty, Marcelo abordou os preconceitos enfrentados por sua família e destacou a importância do incentivo materno para sua formação.
Segundo o novo diplomata, havia uma tradição familiar segundo a qual pessoas como ele “enlouqueceriam se estudassem e deveriam ficar apenas nos trabalhos braçais”. Sua mãe, entretanto, enxergou na educação “uma porta para a vida” e o estimulou a seguir os estudos.
A trajetória de Marcelo evidencia a importância do acesso à educação superior para romper barreiras sociais e ampliar as possibilidades profissionais de integrantes dos povos originários.
Idjahure Terena defende presença indígena nas instituições do Estado
O diplomata Idjahure Achkar Terena, natural do Rio de Janeiro, possui uma trajetória acadêmica dedicada às Ciências Sociais e à Antropologia. Atualmente, é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre na mesma área pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Também possui bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Idjahure é filho de Macsuara Kadiwéu, apontado como o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.
Em seu pronunciamento durante a posse, o novo diplomata relacionou a conquista individual à história de exclusão dos povos indígenas e à necessidade de ampliar sua participação nas estruturas institucionais brasileiras.
“Estar no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita de exclusão e tutela, batalhando por um futuro ancestral e por um novo presente onde a nossa diversidade étnica finalmente integre o Estado”, afirmou.
A declaração destaca o significado político e histórico da presença indígena na diplomacia, especialmente em uma instituição que representa o Brasil nas relações internacionais e participa de negociações sobre direitos humanos, meio ambiente e desenvolvimento.
Instituto Rio Branco registra maior participação feminina de sua história
Além do ingresso dos primeiros representantes indígenas e quilombola destacados na reportagem, a turma 2026-2028 do Instituto Rio Branco apresentou avanços em outros indicadores de diversidade.
Entre os 60 diplomatas, 17 são pessoas negras e sete são pessoas com deficiência. A composição também reúne integrantes de todas as cinco regiões do país, ampliando a representatividade territorial no quadro de novos profissionais.
O Ministério das Relações Exteriores atribuiu os resultados ao desenvolvimento de políticas voltadas à democratização do acesso à carreira, incluindo programas de bolsas de preparação e mecanismos de incentivo à participação feminina.
“O resultado representa avanço na promoção da diversidade no corpo diplomático brasileiro e dá continuidade à trajetória pioneira do Instituto Rio Branco na implementação de ações afirmativas, por meio da concessão de bolsas de preparação ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) e do mecanismo de convocação adicional de candidatas mulheres entre a primeira e a segunda fase do CACD”, informou o ministério.
O Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata é organizado pelo Instituto Rio Branco, vinculado ao Ministério das Relações Exteriores, e está entre os processos seletivos mais concorridos do serviço público federal.
Após a aprovação, os candidatos ingressam na carreira no cargo de terceiro-secretário e realizam o Curso de Formação de Diplomatas, com duração prevista de três a quatro semestres.
A chegada de Helen Borgens, Marcelo Kariri Menezes e Idjahure Terena ao Itamaraty representa, portanto, não apenas uma conquista pessoal dos três profissionais, mas também um avanço na inclusão de segmentos da população brasileira historicamente sub-representados na diplomacia nacional.