Armazenamento de energia avança no Brasil e entra na agenda da COP31
Fonte: alemdaenergia.engie.com.br | Data: 06/11/2026 14:48:37
O Brasil prepara para dezembro de 2026 os primeiros leilões de reserva de capacidade destinados à contratação de sistemas de armazenamento de energia por baterias. A iniciativa busca ampliar a flexibilidade do sistema elétrico, em um cenário de crescimento da geração solar e eólica, cuja produção varia conforme as condições meteorológicas. O papel do armazenamento também integra a agenda da COP31, marcada para 9 a 20 de novembro, em Antália, na Turquia.
A agenda da presidência da conferência inclui investimentos em redes elétricas, armazenamento e mecanismos de flexibilidade para integrar fontes renováveis com confiabilidade. A iniciativa também se relaciona à meta global 35 by 35, que busca elevar a participação da eletricidade no consumo final de energia para 35% até 2035.
O armazenamento permite deslocar o uso da eletricidade no tempo, ajudando a equilibrar a geração e o consumo. Sua expansão, entretanto, precisa ser coordenada com os investimentos em transmissão, distribuição e outros recursos de flexibilidade, como as hidrelétricas com reservatórios.
Baterias ajudam a equilibrar geração e consumo
Os sistemas de armazenamento de energia por baterias, conhecidos pela sigla BESS (Battery Energy Storage Systems), permitem armazenar eletricidade para utilização posterior. Entre suas aplicações está o aproveitamento de parte da geração solar e eólica em horários de maior oferta, com fornecimento de energia em outros períodos, conforme as necessidades do sistema.
As baterias também apresentam capacidade de resposta rápida a variações na frequência da rede, contribuindo para o equilíbrio entre geração e consumo. Dependendo da configuração e da localização, podem prestar serviços de suporte à operação, aliviar restrições na infraestrutura elétrica e, em determinadas situações, postergar investimentos em reforços da rede.
A Agência Internacional de Energia (IEA) destaca que as baterias estão entre as tecnologias de crescimento mais rápido no setor elétrico. Em 2024, foram adicionados 63 gigawatts (GW) de potência de armazenamento em baterias de grande porte no mundo, elevando a capacidade instalada acumulada desse segmento a 124 GW.
Uma característica importante desses equipamentos é a diferença entre potência e capacidade energética. A potência, medida em megawatts (MW), indica quanto o sistema pode fornecer em determinado instante. Já a capacidade energética, expressa em megawatts-hora (MWh), permite dimensionar a quantidade de energia armazenada e a duração do fornecimento.
As baterias convencionais são especialmente adequadas para respostas rápidas e armazenamento por algumas horas. Para necessidades mais prolongadas, outras alternativas podem ser utilizadas, como hidrelétricas reversíveis, reservatórios hidrelétricos, gestão da demanda e fontes despacháveis.
Brasil prevê leilões de baterias em dezembro
Em junho de 2026, o Ministério de Minas e Energia (MME) publicou as diretrizes para dois Leilões de Reserva de Capacidade na forma de Potência, previstos para 2 e 4 de dezembro. Os certames foram estruturados para contratar a disponibilidade de potência de sistemas de armazenamento por baterias conectados ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
Os contratos terão duração de 15 anos, com início de fornecimento previsto para agosto de 2028. Os empreendimentos deverão disponibilizar potência quando solicitados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), contribuindo para o atendimento da demanda e a operação do sistema.
Um dos certames será destinado a projetos que atendam aos requisitos de conteúdo nacional. A medida busca associar a contratação de armazenamento ao desenvolvimento de fornecedores e da cadeia produtiva brasileira.
O interesse do mercado aparece no volume de projetos cadastrados. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), foram inscritos 6.091 projetos, que somam 296.807 MW de potência, para os dois leilões. Esses números representam a oferta inicialmente cadastrada, e não a capacidade que será efetivamente contratada. Os empreendimentos ainda precisam passar pelas etapas de análise e habilitação técnica.
A contratação de potência por meio de baterias representa uma nova frente para o planejamento elétrico brasileiro. Os resultados dos certames deverão oferecer referências sobre custos, condições de contratação e viabilidade econômica dos projetos, contribuindo para orientar investimentos futuros.
Acre estuda sistema de baterias para reforçar fornecimento
O armazenamento também pode ser utilizado para melhorar a confiabilidade do fornecimento em regiões com restrições de transmissão.
Em estudo divulgado pelo MME e pela EPE, uma das soluções propostas para reforçar o atendimento elétrico a Feijó e Cruzeiro do Sul, no Acre, é a instalação de um sistema de baterias com 100 MW de potência e 200 MWh de capacidade energética na subestação de Cruzeiro do Sul.
Segundo o estudo, o equipamento poderia atender à demanda máxima local por até duas horas em situações de falha ou manutenção no sistema de transmissão, beneficiando mais de 200 mil pessoas. O investimento estimado é de R$ 230,5 milhões.
A proposta demonstra uma aplicação do armazenamento diferente daquela associada à integração de fontes renováveis. Nesse caso, as baterias poderiam fornecer energia durante interrupções e aumentar a resiliência do atendimento elétrico.
O sistema integra um planejamento mais amplo de expansão da transmissão na região. A solução mostra como o armazenamento pode complementar a infraestrutura existente, sem necessariamente substituir os reforços de rede previstos para garantir o fornecimento no longo prazo.
Austrália amplia investimentos em armazenamento
A Austrália está entre os países que ampliam a utilização de baterias para integrar a geração renovável e manter a confiabilidade do sistema elétrico. O crescimento das fontes solar e eólica ocorre em paralelo à retirada gradual de usinas a carvão, aumentando a necessidade de recursos capazes de equilibrar oferta e demanda.
No primeiro trimestre de 2026, o Operador do Mercado de Energia Australiano (AEMO) informou que os projetos de baterias em processo de conexão ao mercado elétrico nacional somavam 33,2 GW de potência, ante 20,5 GW um ano antes.
O indicador se refere à carteira de empreendimentos em desenvolvimento, e não à capacidade instalada. Ainda assim, demonstra a escala dos investimentos planejados para ampliar o armazenamento no país.
Em outra iniciativa, o governo australiano anunciou a seleção de 15 projetos que, juntos, somam 4,2 GW de potência e 16,1 gigawatts-hora (GWh) de capacidade energética. Os sistemas deverão armazenar eletricidade em determinados períodos e fornecê-la conforme as necessidades do mercado e da operação elétrica.
A experiência australiana mostra a importância de mecanismos de contratação e remuneração capazes de viabilizar os serviços prestados pelas baterias. A localização dos empreendimentos, a conexão à rede e a duração do fornecimento também influenciam a contribuição de cada projeto para o sistema.
No Brasil, a adoção dessas soluções precisa considerar as características do SIN, incluindo a participação das hidrelétricas com reservatórios, a distribuição regional da geração renovável e as necessidades de expansão da transmissão.
COP31 destaca redes e armazenamento na transição energética
A agenda da COP31 reconhece redes elétricas, armazenamento e flexibilidade como elementos necessários para ampliar a participação da eletricidade no consumo final de energia.
A eletrificação de transportes, edifícios e processos industriais tende a aumentar a demanda elétrica e modificar os horários de consumo. Para atender a esse crescimento com segurança, os sistemas precisarão combinar expansão da geração de baixa emissão, modernização das redes e tecnologias capazes de responder às variações entre oferta e demanda.
No Brasil, os leilões previstos para dezembro representam uma etapa na definição das condições de contratação de baterias em escala. Projetos como o estudado para o Acre também mostram que o armazenamento pode atender a necessidades específicas de confiabilidade, além de contribuir para a integração de fontes renováveis.
A inserção dessas tecnologias dependerá de regras de contratação, viabilidade econômica e planejamento que considere os serviços prestados por cada empreendimento. A combinação entre baterias, infraestrutura elétrica e outros recursos de flexibilidade será determinante para ampliar a segurança do fornecimento em um sistema com participação crescente de fontes renováveis.